Em seu livro Mulheres que Correm com o Lobos, Clarisse Pinkola Estés aborda a lenda do Barba Azul e sua correlação com o predador interno feminino.
A origem da obra
“O Barba Azul” é
uma obra que foi escrita no século XVI por Charles Perrault que, pelo
que acreditam os estudiosos de contos de fada, foi inspirada na história de Gilles
de Rais, um nobre do século XIV.
Gilles de Rais foi um francês da nobreza, criado por seu avô,
o que o teria influenciado a desenvolver tendências para a soberba e o
narcisismo. Com o tempo, desenvolveu uma personalidade agressiva, cometendo seu
primeiro assassinato aos 15 anos, quando matou um amigo em duelo, mas como era
da nobreza, não chegou a responder por isso.
Entrou para a carreira militar e lutou nas batalhas do lado
de Joana D´Arc, por quem desenvolveu uma grande admiração, ficando
terrivelmente perturbado após a morte dela.

Quando acabou a guerra e depois de receber a notícia da
morte de sua musa, foi se fechando cada vez mais, se tornando sombrio e
solitário. Foi viver em um de seus castelos em Tiffauges, onde começou a
realizar suas perversões.
Foi suspeito do sumiço de mais de 1000 crianças que dizia
ter enviado a Inglaterra para virarem padres. Em um clima de magia negra,
Gilles praticava atos bizarros com sua vitimas: estupros, torturas e
assassinatos que veio a confessar mais tarde. Em um de seus surtos, chegou a
confessar cerca de 200 crimes e se disse arrependido por tê-los praticado.
Essas declarações assustaram a comunidade francesa na época
que o tomavam por herói. Em 1440, com aproximadamente 35 anos, Gilles foi
enforcado e seu corpo queimado.
O Barba Azul – Resumo
da história
Na história de Charles Perrault, o personagem barba azul é
um homem muito rico que assustava as mulheres por quem se interessava, devido à
sua feiura e à sua barba profundamente azul.
A lenda conta que certa vez, o Barba-Azul se encantara ao
mesmo tempo por duas moças filhas de uma distinta dama da região, indo pedir à
mãe a mão de uma de suas filhas. Mas devido à sua aparência assustadora e ao
fato de o paradeiro de suas ex-mulheres ser um mistério, as meninas, de
imediato, não o aceitaram.

No entanto, para encantar a família, ele levou a mãe, as
filhas e alguns amigos para sua casa de campo onde ofereceu banquetes, danças e
toda sorte de agrados.
Depois desse passeio, a irmã mais nova da distinta dama, vendo
o quanto o dia havia sido agradável para todos, mudou seus conceitos sobre o
Barba-Azul, começou a acha-lo um homem razoável e assim, no dia seguinte, se
casaram.
Após um mês de casados, o Barba-Azul foi viajar e deixou com
sua esposa um molho de chaves para que pudesse usufruir de todos os bens do
castelo e até mesmo chamar convidados para entretê-la, enquanto ele estivesse fora.
Disse que ela poderia fazer o que quisesse, menos entrar em um dos aposentos,
localizado ao final de um longo corredor.
Quando o marido não está em casa, a esposa chama seus
convidados, mas em meio a todo o movimento, não aguenta de curiosidade, foge
sozinha e abre a porta proibida. A sala está bem escura, mas aos poucos seus
olhos e acostuma e ela se depara com o horror: sangue pisado e os esqueletos das
ex-mulheres do Barba-Azul.
Assustada, deixa a chave cair no chão, abaixa e a recolhe,
tranca a porta e corre assustada para seus aposentos. Chegando ao seu quarto, ela
se dá conta que a chave esta manchada de sangue. Ela corre para limpa-la, mas
logo percebe que a chave esta encantada, o que torna essa tarefa impossível.
Com pavor de ser descoberta, ela esconde a chave. Mas assim
que Barba-Azul volta, desmarcara sua esposa e declara que seu destino será como
o das suas outras ex-mulheres. Ela ajoelha aos seus pés e pede desculpas, mas
de nada adianta. Então, tendo a morte como certa, pede a Barba-Azul que a dê
alguns minutos para fazer suas orações.
Enquanto seu marido sai, ela cautelosamente chama sua irmã
Ana e lhe pergunta se os irmãos, que estavam vindo para visita-la, estavam
chegando. O tempo que Barba-Azul lhe havia dado, já tinha acabado, ele já esbravejava
como um trovão chamando-a, e nada dos irmãos. Nos últimos instantes em seu
quarto, antes de descer para o aposento no qual o marido a esperava, Ana avista
os irmãos chegando e a avisa.
A irmã mais nova não tem mais como escapar e é obrigada a
descer até o quarto de sua morte. Barba-Azul ergue a espada para degola-la, mas
antes que possa desferir o golpe, escuta um som aterrorizante, são os irmão que
invadem a casa e matam o assassino.
Discussão do conto
Nos abismos do universo feminino, habitam forças
desconhecidas, por vezes extremamente perigosas e que precisam ser confrontadas
com habilidade para que a mulher que há em cada menina possa vir à tona e se
desenvolver.
Nos recônditos do inconsciente de toda mulher, segundo
defende Clarisse Pinkola Estés, há um predador que mina a criatividade, a
intuição e toda a riqueza da personalidade feminina.
Como no conto do Barba Azul, a real natureza destrutiva
dessa força interna não fica tão clara, o que faz com que muitas vezes sua
vitima dê ouvidos às suas investidas. Quando não tem conhecimento de si e
maturidade suficiente para lidar com sua profundidade, a mulher facilmente é
levada a deixar-se mutilar por esse terrível opressor da alma feminina.
A mulher que se deixa dominar pelo predador da psique, como
acontece com as ex-mulheres de Barba-Azul, tem sua feminilidade e beleza
dissecadas. Embora sua força de mulher não seja eternamente destruída, sobram-lhe
apenas os ossos ensanguentados.
O Barba-azul tenta confundir a ideia que a mulher tem dele,
a ludibria com seu poder e toma como vitima às mulheres que ainda não tem sua
intuição tão fortalecida.
Apesar de interno, esse predador tem por vezes seu poder
reforçado por condições externas, como culturas extremamente machistas e
opressoras, o que dificulta ainda mais esse confronto.
A mulher que se vê vitima desse inimigo interno, sem o
confrontar, pode por vezes virar vitima também de opressores externos, como
parceiros abusivos que a agridam, seja fisicamente ou minando seu potencial
criativo.
Efeitos do Machismo
Longe de fazermos um julgamento de que ter barba seja
sinônimo de machismo, no contexto dessa história, devemos considerar sua
simbologia.
A barba é um dos símbolos mais fortes desse conto, é ela que
assusta as mulheres que se aproximam do vilão, que sentem naquela imagem um mau
agouro. A barba tem, de fato, uma representação social de masculinidade, do
poder do homem, levando-nos a associar o barba-azul como representante claro do
mais extremo e destrutivo machismo na alma da mulher.
Nós viemos de uma longa historia de machismo que feriu,
extremamente, a alma dos homens e das mulheres. Os homens foram, por muito
tempo, privados de vivenciar livremente seus sentimentos e sensibilidade e, as
mulheres reclusas a papeis sociais desvalorizados, como personagens
coadjuvantes cuja criatividade e intuição nunca foram valorizadas.
Hoje, apesar de vivermos um momento em que essa sombra da
sociedade tem sido abertamente confrontada, ainda se observam seus efeitos
sociais e psíquicos na construção da mulher na sociedade, e alguma vezes ainda
assistimos a mulheres que se vem obrigadas a se masculinizar para serem aceitas
em algumas posições sociais.
Precisamos perceber que não só a mulher concreta é vitima do
machismo, mas todas as qualidades associadas à mulher, tais como sensibilidade,
intuição e criatividade. Esses poderes ainda são muito marginalizados, tornando
ainda mais difícil para a mulher conseguir enfrentar seu predador interno e
realizar o seu potencial feminino.
O caminho para o desenvolvimento da alma feminina está em
conseguir confrontar seus fantasmas, desarmar o predador e fortalecer em sua
jornada sua sensibilidade e intuição.
Seja social como intimamente, essa força destrutiva precisa
ser corajosamente enfrentada para que a força das qualidades masculinas,
fixadas no machismo, possam se transformar e auxiliar a mulher em seu
desenvolvimento social e na expressão dos seus mais profundos talentos.









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